Meu primeiro race report? Across Andes 2024
“Não pare de pedalar senão você vai congelar, não pare!”
Foi o que Jessica Ropcke gritou para mim em algum ponto entre Balmaceda e La Junta, descendo uma montanha na direção contrária à minha. Meus dedos e meu nariz já estavam congelados. A garoa havia reduzido a visibilidade a quase nada. Eram vinte, trinta quilômetros de subida sem alma viva pela frente, durante a madrugada, e ela desapareceu na névoa antes que eu pudesse responder qualquer coisa.
Eu entendi.
Mas essa história começa muito antes daquele momento. Ela começa em 2022, quando eu estava em um lugar ruim.
O Ponto de Partida
Duas lesões graves, uma costela quebrada e uma lesão no ligamento do ombro direito que doía de um jeito que me deixava acordado à noite, me afastaram de tudo. Eu havia ganhado peso, me sentia desmotivado, e havia entrado em um estado depressivo que eu reconhecia mas não sabia bem como nomear. A bicicleta, que sempre foi meu refúgio, havia desaparecido em uma neblina cinzenta. Não era que eu não pudesse pedalar. Era que eu não queria pedalar sendo a pessoa que eu tinha me tornado.
Na virada de 2022 para 2023, algo mudou. Não foi uma epifania, nada de momento dramático. Foi uma questão prática: eu precisava de um desafio real, algo que me forçasse a imaginar uma versão diferente de mim mesmo em um lugar diferente. Lembrei da Carretera Austral, aquele sonho antigo que eu carregava desde adolescente, e então encontrei o Across Andes.
O Across Andes é uma prova de ultraendurance no formato self-supported, ou seja, cada atleta atravessa a Patagônia chilena com autonomia total de navegação, alimentação e estratégia. Sem equipe de apoio, sem assistência no meio do caminho. A rota combina trechos da Carretera Austral com estradas remotas, em terreno misto de asfalto e terra, e coloca o ciclista diante de condições que mudam a cada hora: frio, chuva, vento, sol. Mais do que uma prova física, é um exercício de gestão de esforço e tomada de decisão sob fadiga extrema.
A edição de 2024 teve cerca de mil quilômetros de extensão, com algo entre quinze e dezoito mil metros de altimetria acumulada e limite de tempo de 130 horas. O percurso atravessava regiões icônicas da Patagônia, áreas de grande isolamento e beleza selvagem. Quando eu me inscrevi — em silêncio, sem contar para ninguém — eu ainda não compreendia o que aquilo significava de verdade. Ninguém compreende, aliás, antes de chegar lá.
A Preparação
Uma nutricionista me mostrou o óbvio: minha alimentação era caótica, minha hidratação ridiculamente baixa, e por isso eu vivia cansado. Não era o corpo que falhava. Era o combustível. Em abril contratei um treinador. A maioria das pessoas próximas achou loucura quando eu finalmente revelei o plano. Talvez fosse.
A parte que eu mais gosto dessas provas é a organização, há algo quase como uma aventura juvenil em preparar as bolsas, em revisar cada item na cabeça durante dias, conversando silenciosamente com o desconhecido. Eu preciso disso em caso de… Se passar mal, levo esse remédio… E se o tempo virar?
Em outubro, um susto quase me tirou de tudo: uma queda, suspeita de fratura no escafóide. Um fio maldito se enroscou no pedivela e me projetou para frente com toda a minha confiança. Passei quase uma semana pesquisando na internet se haveria tempo hábil para recuperação, vendo meses de preparação desabando em uma fração de segundo. Quando descartaram a fratura, senti um alívio que talvez seja impossível descrever a quem nunca passou por algo assim. Ali eu chorei.
O Inimigo Errado
Eu sou aquele friorento clássico, o tipo que sofre com a temperatura em quinze graus. Na minha cabeça, o frio era o inimigo supremo. Fui para a prova com roupas demais. Camadas sobre camadas, e aquela sujeita de que nenhuma das minhas roupas era de fato adequada. Eu tinha uma capa de chuva que prometia milagres e uma manta térmica cortada especialmente para os momentos de frio extremo que eu sabia que viriam.
No dia da largada, 24 de novembro, não estava tão frio assim.
Saí carregando todas aquelas camadas e em poucos minutos já estava transpirando. Parei para tirar peças. O medo do frio foi evaporando junto com o suor, e fui entendendo algo que só faria sentido dois dias depois: o segredo é não parar de pedalar. Enquanto você está em movimento, você está aquecido. É uma verdade simples e brutal, por que em vários momentos você não quer mais pedalar, e não quer sentir frio.
Aquelas primeiras horas foram estranhas. Eu saía respirando com um chiado esquisito vindo do peito, aquele som que você reconhece como errado. Só depois da prova eu descobriria que sou asmático, asma induzida por exercício (AIE). Todos aqueles anos reclamando que os primeiros quilômetros em qualquer pedal eram horríveis, que eu odiava sair de casa para pedalar, nada disso era preguiça. Era medicina. Meu corpo estava lutando contra uma condição que eu nem sabia que tinha.
Mas foi a chuva, e não o frio, que viria a me atormentar.
A primeira chegou na segunda metade do dia um. Chuva de verdade, não aquele chuvisco que você ignora, mas chuva que passa através de qualquer coisa que você veste. Dormi em blocos de palha compactada no chão de um estábulo gelado, porque optei por não seguir mais vinte quilômetros até um chalé. Foi a decisão errada. Fiquei deitado naquela palha, tremendo, profundamente arrependido. Deveria ter pedalado. Em movimento, aquecido pelo esforço, eu não estaria naquele inferno.
Quando o Corpo Entende
Pela manhã, ao sair do estábulo, descobri que o STI esquerdo da bicicleta não funcionava. Minha espinha gelou. Seria possível que tivesse quebrado? Parei, respirei, revisei cada item com calma. A bateria havia se drenado: deixei a bicicleta deitada e o botão de câmbio ficou pressionado por horas. Tinha reserva. Fiz a troca. O pedal continuou.
O dia dois foi profundamente chuvoso. Aquela chuva que tira o prazer de estar vivo, que entra em cada fresta, que faz você questionar cada decisão que o levou até aquele momento. Ironicamente, era tudo aquilo que eu não temia, porque todo meu medo estava depositado no frio.
Fiz menos de duzentos quilômetros pelo segundo dia consecutivo. O plano desabando.
No terceiro dia, algo mudou. Acordei com uma certeza quase física de que eu iria conseguir. Talvez o corpo, quando percebe que já sobreviveu ao pior, decida cooperar. Decidi mudar de estratégia: pedalar concentrado, cortar distrações, paradas rápidas. Pedalar durante a noite e concluir dois checkpoints no mesmo dia.
Foi no trajeto para o PC3 que conheci o verdadeiro frio. Os dedos congelando primeiro, depois o nariz, depois o peito, o frio avançando de fora para dentro como se estivesse mapeando o corpo. Vinte quilômetros subindo. Trinta. E então Jessica, no caminho contrário, me gritou aquela ordem que eu nunca vou esquecer.
Segui girando o pedivela pensando apenas em chegar. Um giro. Mais um. A montanha demorou muito mais do que eu havia calculado, aquela distorção temporal que acontece quando o corpo está no limite e o cérebro perde a capacidade de medir qualquer coisa com precisão.
Cheguei ao PC3, um ginásio, e eu estava com a pior feição de toda a prova. Rosto inchado, olhos vermelhos, articulações como chumbo. Tomei um banho quente, não tinha toalha. Me sequei com as roupas sujas. Coloquei tudo para secar perto do aquecedor, ao lado das roupas dos outros atletas, formando uma instalação de arte involuntária feita de lycra e sofrimento.
O Queulat e a Reta Final
O Monte Queulat durante a noite foi o momento mais assustador do percurso. Eu já havia passado por ele, na ida. Mas foi durante o dia, e a subida estava pavimentada. A volta foi por uma subida de nove quilômetros, com rampas irregulares que chegam a onze por cento, superfície mista, umidade permanente. O tipo de terreno que não exige explosão, mas resistência.
Subi emocionado. Eu já havia enfrentado montanhas piores, sou de Minas, né? Mas ali tinha algo diferente. Um brilho. Uma magia. Algo que só existe quando você carrega nos pedais o peso de tudo o que viveu para chegar até aquele ponto.
Do outro lado, a descida. Parece óbvio que toda montanha tem dois lados, mas quando você está no limite, a descida não é um fato geográfico. É um presente.
No dia cinco, eu tinha uma missão: chegar antes do pôr do sol. Pedalei motivado, tomei géis com cafeína, acelerei. Pela primeira vez na prova inteira senti aquela excitação quase infantil que os outros haviam sentido na largada. Não havia chuva. O sol me alimentava. As paisagens estavam de um verde que parecia ter sido pintado naquela manhã, só para mim.
Mas nem tudo são flores. Nunca é.
Faltando sessenta quilômetros, comecei a sentir uma dor no joelho que eu nunca havia sentido antes. Não a dor comum do desgaste, aquela que você conhece e com a qual negocia. Uma dor nova, aguda, que parecia vir de dentro do osso. Parei várias vezes à beira da estrada para gritar. Uma dor intensa, daquela que sai pela boca porque o corpo não aguenta segurar.
Lancei mão de um analgésico forte, fosfato de codeína com paracetamol, daqueles que você leva esperando nunca precisar. Consegui seguir me arrastando, cada pedalada uma negociação entre a vontade de terminar e a dor que insistia em me lembrar de que eu era humano. Até que surgiu a entrada de Coyhaique: uma descida maravilhosa, longa, generosa. A cada metro, a certeza crescia. Eu estava terminando.
A chegada
É estranho tentar descrever um momento que você passou meses imaginando.
Ao cruzar a linha de chegada, fui entrevistado em espanhol, e eu estava tão extasiado que respondi palavras ao vento, coisas aleatórias, frases que não faziam sentido nem em português. Havia luz do dia, aquilo importava, o resto não. Nada do que eu pudesse dizer naquele instante seria capaz de traduzir o que eu sentia.
Era o peso da medalha no pescoço que me mantinha no chão, porque sem ela eu teria flutuado, como um balão de hélio que alguém finalmente soltou.
LISTO
Exatamente um ano depois, lançamos o documentário sobre a aventura, baseado nos meus relatos e nos relatos de dois amigos. “Listo – Across Andes 2024” tenta traduzir em imagens o que foi a experiência. Aproveito para deixar o link aqui e sugerir que você, leitor, assista!






