O que eu pensava sobre IA no ano passado…

Nota: Este texto foi elaborado no ano passado, quando recebi um convite no trabalho para palestrar sobre Inteligência Artificial para colegas aterrorizados com a narrativa de que o mundo do trabalho estava prestes a virar de ponta-cabeça. O título original era “Inteligência Artificial: Entre o Hype e a Realidade”.

Como historiador que passou anos estudando urbanismo e que já se aventurou pelo desenvolvimento de aplicativos, tenho observado com curiosidade crescente como estamos imaginando nosso futuro através da Inteligência Artificial. E quero começar essa conversa com uma provocação: quando falamos de IA, estamos falando muito mais sobre nossas expectativas como sociedade do que sobre a tecnologia em si.

O que realmente mudou?

A IA que conhecemos hoje não é mágica — ela se baseia em três pilares bem concretos: a capacidade de aprender com dados (Machine Learning), sistemas inspirados no cérebro humano para processar informações complexas (Deep Learning), e a disponibilidade massiva de dados que a internet nos trouxe (Big Data). O grande salto não foi criar máquinas que pensam como nós, mas sim criar sistemas que aprendem e se adaptam continuamente.

Pense nos assistentes virtuais que já fazem parte do nosso cotidiano. Eles não são inteligentes no sentido humano da palavra, mas conseguem reconhecer nossa voz, entender o que pedimos e resolver problemas específicos. É uma automação sofisticada, e isso já muda muita coisa.

As expectativas que carregamos

Aqui está o ponto que me fascina como historiador: toda inovação tecnológica vem carregada de expectativas, medos e imaginários sobre o futuro. Da lâmpada elétrica no século XIX ao homem na Lua no século XX, cada avanço técnico reconfigurou não apenas o que fazíamos, mas como imaginávamos o que poderíamos fazer.

Com a IA, não é diferente. Silvio Meira, professor da UFPE, nos lembra que a internet comercial começou há apenas 30 anos. Banda larga? Apenas 20 anos. Smartphones? Meros 17 anos. E olha tudo que mudou. Agora, com a IA acelerando esse processo, estamos diante de transformações ainda mais profundas — e mais rápidas.

Mas nossas reações também seguem padrões históricos conhecidos. Em 1982, o Sindicato dos Musicistas do Reino Unido tentou banir sintetizadores por medo de que substituíssem músicos “de verdade”. Hoje, consideramos essa tentativa de proibição absurda. Quinze anos depois, o mesmo sindicato não só liberou os sintetizadores como passou a aceitar DJs como membros.

Entre o entusiasmo e o medo

O que podemos fazer com IA hoje é impressionante e, ao mesmo tempo, bastante prático: traduzir textos com contexto, elaborar resumos, revisar currículos, organizar ideias, resolver problemas matemáticos, até aprender uma nova língua. São ferramentas como ChatGPT, Gemini, Perplexity — todas acessíveis e, em grande medida, gratuitas.

Mas também há riscos reais. Quando a Air Canada colocou um chatbot no ar para reduzir filas de atendimento, o sistema inventou uma política de reembolso inexistente. O cliente exigiu o cumprimento. A empresa alegou erro técnico. A Justiça decidiu: se você colocou o robô no ar, você é responsável pelo que ele faz.

Essa história ilustra perfeitamente o desafio: as ferramentas de IA não possuem políticas claras de privacidade, e as empresas ainda estão aprendendo a implementá-las de forma responsável. Estamos todos — indivíduos, organizações, sociedade — nos adaptando em tempo real.

E o futuro disso tudo?

Como bem disse o físico Niels Bohr: “É muito difícil fazer previsões. Especialmente sobre o futuro.” Mas podemos dizer algumas coisas com segurança: a IA já está transformando o mercado de trabalho através da automação de tarefas repetitivas e da análise de dados complexos. Os próximos 15 anos, acelerados por essa tecnologia, prometem mudanças ainda mais significativas do que os 15 anos anteriores de internet.

A questão não é se devemos abraçar ou rejeitar a IA — essa escolha não está mais em nossas mãos. A questão é como nos adaptaremos, que políticas criaremos, que responsabilidades assumiremos. E, principalmente, que futuro queremos imaginar e construir com essas ferramentas.

Porque, como lembra Bill Watterson: “Dia após dia, parece que nada muda, mas logo… tudo está diferente.”

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