O último lugar bagunçado da internet
Em dezembro de 2018, o Tumblr decidiu se matar. Não foi a palavra que usaram, claro. A palavra oficial foi “um Tumblr melhor, mais positivo”, frase tão lavada de sentido que poderia ter saído de qualquer departamento de comunicação corporativa do planeta. Mas o que aconteceu naqueles dias entre o anúncio, em 3 de dezembro, e a entrada em vigor da política, em 17 do mesmo mês, foi um suicídio assistido: uma plataforma cultural inteira sendo desligada da máquina pelos próprios donos, sob o aplauso desconfortável daqueles que confundiam moderação com moralização.
Quem viveu o Tumblr nos seus anos bons sabe que ele era diferente. Stefanie Duguay, professora associada de Estudos da Comunicação na Universidade Concordia, achou talvez a melhor descrição em entrevista à CBC Radio: o Tumblr era “um dos últimos lugares bagunçados que restavam na internet”. Eu gosto dessa formulação porque ela diz algo que escapa a métricas. Bagunça não é um bug, é uma propriedade emergente de espaços onde pessoas reais, com corpos reais, identidades em formação e desejos contraditórios, podem coexistir sem precisar performar para um algoritmo otimizado para engajamento publicitário.
A morte do Tumblr não foi natural. Foi assassinato. E a história desse assassinato, quem o cometeu, por que, e contra quem, diz muito sobre a internet em que vivemos hoje.
O acidente feliz que foi o Tumblr
David Karp tinha vinte anos quando lançou o Tumblr em fevereiro de 2007. Havia largado o Bronx Science aos quinze, aprendido HTML aos onze, passado a adolescência fazendo coisas estranhas com computadores em Nova York. A plataforma nasceu, literalmente, numa pausa entre contratos da sua consultoria de software: ele e Marco Arment construíram a primeira versão em duas semanas. Quinze dias depois do lançamento, eram 75 mil usuários. Em 2011, dezessete milhões de blogs. Em 2013, quando o Yahoo comprou a empresa por 1,1 bilhão de dólares, o número já beirava os trezentos milhões.
O que tornava o Tumblr especial, para além dos números, era a arquitetura quase ideológica. Karp, num gesto que parecia ingenuidade mas talvez tenha sido a única visão verdadeira da história do Vale do Silício do século XXI, construiu deliberadamente contra o que viria a ser chamado de economia da atenção. Não havia botão de comentário em destaque, havia “reblog”. Não havia “mensagem”, havia “fan mail”. Não havia número de seguidores estampado na cara de quem postava. O coraçãozinho era um botão de afeto, não de validação pública. O dashboard era cronológico. O anonimato era padrão. E você podia ter quantos blogs quisesse, com identidades distintas, sob URLs próprias, uma pluralidade de selves que o Facebook, naquele mesmo ano, estava ocupado tentando achatar em “perfil único, nome real”.
Karp dizia em entrevistas que rejeitava os incentivos baseados em dinheiro e status do YouTube e do Facebook. Dizia que queria cultivar criatividade. Soou, na época, como conversa de fundador idealista que ainda não tinha aprendido a falar com investidor. Em retrospecto, parece o último momento em que alguém com poder de fazer uma plataforma realmente acreditava que ela poderia servir para algo além de extrair valor de quem a usava.
Foi nessa bagunça arquitetônica, anônima, multimídia, descomercializada, lenta no sentido bom, que floresceu uma das coisas mais raras da internet contemporânea: uma plataforma de massa que abrigava margens de verdade.
O que existia ali
Para quem nunca esteve no Tumblr entre 2010 e 2017, é difícil descrever o que se perdeu. Não era uma rede social no sentido pós-Instagram do termo. Era mais parecido com um arquivo coletivo, atravessado por correntes de gosto que se cruzavam sem hierarquia clara. Fanfic de Supernatural convivia com ensaios sobre teoria queer. Fotos analógicas de cemitérios conviviam com debates sobre veganismo radical. Posts sobre BDSM conviviam com tutoriais de costura de sapatos. Adolescentes de cidades pequenas descobrindo que existiam palavras para o que sentiam, “não-binárie”, “aroace”, “demissexual”, encontravam, no mesmo scroll, fotos de cirurgias de afirmação de gênero documentadas por pessoas trans que queriam mostrar a outras o que esperar.
Pesquisadores que estudaram a plataforma encontraram, repetidamente, o mesmo padrão: o Tumblr era onde pessoas LGBTQ+, especialmente jovens, iam para se formar. Não no sentido vago de “encontrar comunidade”, mas no sentido literal: era onde encontravam o vocabulário, as referências, os modelos, os corpos parecidos com os seus. A possibilidade de cultivar uma identidade emergente sob anonimato, separada da família, da escola, do trabalho, era infraestrutura crítica de sobrevivência psíquica. Uma usuária chamada Charlotte, ouvida pela NBC News na época do banimento, disse uma frase que me persegue até hoje: “É o primeiro lugar onde me assumi online, e um dos poucos espaços onde posso ser abertamente queer”.
Havia também, e isso precisa ser dito sem rodeios, uma cultura erótica que era ela mesma um ecossistema artístico. Artistas independentes, ilustradores, fotógrafas, performers, escritores de erótica, cineastas queer, usavam o Tumblr porque era o único lugar em que conseguiam, simultaneamente, mostrar seu trabalho, encontrar público, conectar-se com pares, e existir sem precisar pedir desculpas pelo conteúdo. A pornógrafa Paulita Pappel descreveu isso de forma precisa em entrevista à PinkNews: “O Tumblr fornecia comunidade e acesso à pornografia para pessoas LGBT+ e PoC que escapava dos padrões sexistas, homofóbicos e racistas que outras plataformas reproduzem”. A cineasta queer Courtney Trouble, figura central do nascimento da pornografia queer nos EUA, dizia que o Tumblr unia uma comunidade “ligada por sua orientação e desejo sexual”.
Isso não é trivial. A pornografia mainstream, corporativa, hétero-padrão, otimizada para a economia da atenção masculina branca, é uma das coisas mais culturalmente conservadoras que existem, apesar do verniz de transgressão. O que florescia no Tumblr era outra coisa: uma pornografia indie, feita por gente que aparecia nela, voltada para públicos que não eram contemplados por nada no mercado. Era arte erótica no sentido em que arte é qualquer prática de produção de sentido fora dos imperativos da indústria. Trabalhadoras sexuais usavam a plataforma como portfolio, como divulgação, como rede de segurança coletiva. Pessoas trans documentavam transições para outras pessoas trans. Casais não-normativos compartilhavam imagens de si mesmos não como espetáculo, mas como gesto de existência.
E havia, sobreposto a tudo isso, uma economia de subsistência precária mas real. Artistas vendiam comissões. Ilustradores faziam zines. Modelos alternativas construíam público que migrava com elas para Patreon, OnlyFans, sites próprios. O Tumblr era infraestrutura: não a renda em si, mas o terreno onde a renda podia germinar.
O Yahoo e os primeiros sinais
O Yahoo comprou o Tumblr em 2013, e Marissa Mayer fez uma promessa que entraria para a história das frases vazias do capitalismo de plataforma: “não vamos estragar”. Estragaram. O Yahoo não tinha a menor ideia do que tinha comprado: uma plataforma cuja cultura era estruturalmente incompatível com publicidade direcionada, pois dependia exatamente das coisas que anunciantes detestam: anonimato, conteúdo adulto, identidades fluidas, debates políticos radicais, audiências que se recusavam a serem mensuradas como público-alvo.
Tentaram empurrar publicidade. Tentaram empurrar “promoted posts”. Tentaram, sucessivamente, descobrir como monetizar algo que estava arquitetonicamente desenhado contra a monetização. Em 2016, depois de três anos de fracasso, o Yahoo escreveu uma perda de 712 milhões de dólares no valor da empresa. Em 2017, a Verizon comprou o Yahoo inteiro, e o Tumblr foi parar dentro de uma subsidiária chamada Oath, nome que já anunciava o constrangimento da coisa. Karp saiu no fim daquele ano.
Enquanto isso, restrições silenciosas iam se acumulando. Já em julho de 2013, sob o Yahoo, blogs marcados como adultos passaram a ser filtrados dos resultados de busca para usuários deslogados. A repressão era lenta, em camadas, do tipo que treina os usuários a não perceber que estão sendo cercados.
E havia, claro, o problema real: o Tumblr de fato hospedava conteúdo ilegal. Em 2018, a Apple descobriu pornografia infantil no aplicativo e o retirou da App Store. A questão da moderação de conteúdo abusivo era genuína. Mas o que aconteceu em seguida não foi moderação. Foi terra arrasada.
O dia em que o Tumblr se matou
Dezessete dias depois de ser retirado da App Store, em 3 de dezembro de 2018, o Tumblr anunciou que baniria todo “conteúdo adulto”. A nova política, escrita pelo CEO Jeff D’Onofrio, definia conteúdo adulto como “fotos, vídeos ou GIFs que mostrem genitais humanos da vida real ou mamilos de aparência feminina”, mais qualquer representação de atos sexuais. A política entraria em vigor em 17 de dezembro.
A formulação “female-presenting nipples”, mamilos de aparência feminina, entrou imediatamente para o panteão das frases mais ridículas já produzidas por uma empresa de tecnologia. Não apenas porque era anatomicamente inepta (o que distingue um mamilo “feminino” de um “masculino” não é nada), mas porque revelava algo mais profundo: a política havia sido escrita por gente que não sabia o que estava banindo. Não conheciam a plataforma, não conheciam as comunidades, não conheciam as práticas.
Havia “exceções”, diziam. Mamilos em contexto de amamentação, pós-mastectomia, cirurgia de afirmação de gênero. Erótica textual. Nudez em arte: esculturas, ilustrações. Na teoria, parecia razoável. Na prática, foi uma catástrofe, porque ninguém na liderança havia pensado em como um algoritmo distinguiria um mamilo “permitido” de um “proibido”, uma ilustração erótica de uma fotografia, uma cirurgia documentada de uma cena íntima.
A resposta foi automatizar o ódio. O sistema de detecção começou a marcar tudo: arte de Pokémon, Garfield, screenshots de séries, fotos de dinossauros, imagens de paisagem, selfies sem nudez nenhuma, posts de recuperação pós-cirúrgica de pessoas trans, tutoriais de educação sexual, memoriais a vítimas de violência, pinturas renascentistas. A piada que rodou na época, de que o algoritmo havia confundido Garfield com pornografia, era literalmente verdade.
Petições começaram a circular. Uma chegou a 665 mil assinaturas. Não importou. Em 17 de dezembro, a política entrou em vigor.
Quem perdeu o quê
A narrativa oficial, repetida em comunicados, defendida por relações públicas, era que o Tumblr estava combatendo pornografia infantil e bots de spam. O problema é que a política não foi desenhada para fazer isso. Pornografia infantil já era ilegal e exigia um sistema de detecção totalmente diferente, baseado em hash matching contra bancos de dados de imagens conhecidas. Bots de spam não foram impactados; continuaram lá, em tags como #selfie, durante anos. O que foi atingido foi outra coisa inteiramente: o ecossistema criativo adulto não-corporativo que havia florescido durante uma década.
As perdas não foram simétricas. Vamos por partes.
Artistas independentes perderam, da noite para o dia, anos de trabalho. Não estou falando metaforicamente. Estou falando de portfólios construídos ao longo de cinco, oito, doze anos sendo deletados em massa por um bot que classificou ilustrações de figura humana como pornografia. Estudos de anatomia. Esboços de nu artístico. Fanart. Comissões. Trabalhos publicados em zines, em livros, em exposições: tudo varrido. O Tumblr ofereceu, em tese, uma janela para “salvar conteúdo antes da deleção”. Na prática, o sistema falhava, os e-mails de notificação se perdiam, e blogs inteiros desapareciam com avisos retroativos.
Para artistas cujo trabalho era integralmente sexual ou erótico (ilustradoras de hentai queer, fotógrafas de boudoir alternativo, performers que mantinham documentação visual do próprio corpo), a deleção foi total. Para artistas cujo trabalho era apenas tangencialmente NSFW, o algoritmo apagou a obra inteira, incluindo o SFW, porque o blog estava “comprometido”. Uma artista chamada Scout, ouvida pela NBC News na época, simplesmente migrou para o Twitter, mostrando, num thread, todos os desenhos que o Tumblr havia marcado, nenhum deles sequer NSFW.
Criadores eróticos (e aqui incluo trabalhadores e trabalhadoras do sexo, mas também o universo mais amplo de quem produzia conteúdo adulto independente) perderam, simultaneamente, três coisas: portfolio, audiência e renda. O Tumblr era, para muita gente, o topo do funil que levava clientes e patronos a Patreon, OnlyFans, sites próprios, pacotes de comissão. Sem essa porta de entrada, a economia inteira do trabalho sexual indie online ficou mais difícil. E ficou mais difícil precisamente para quem já tinha menos margem: trabalhadoras racializadas, performers trans, pessoas que dependiam do anonimato para conseguir trabalhar.
Some-se a isso o contexto regulatório. Em março de 2018, oito meses antes do banimento, os EUA aprovaram as leis FOSTA e SESTA, que responsabilizavam criminalmente plataformas pelo conteúdo de seus usuários relacionado a “tráfico sexual”, definição vaga o suficiente para varrer junto qualquer trabalho sexual consensual. Múltiplos fóruns de trabalho sexual fecharam imediatamente. A Craigslist desligou a seção de pessoais. Trabalhadoras perderam redes de segurança que usavam para checar clientes, alertar umas às outras sobre violência, organizar coletivamente. Como contou Meg Munoz à Rolling Stone na época, “o impacto imediato foi rápido e, honestamente, aterrorizante. Vimos pessoas literalmente voltarem para seus cafetões sabendo que tinham perdido qualquer pedaço de autonomia”.
O banimento do Tumblr precisa ser lido nesse contexto. Não foi uma decisão isolada de uma empresa. Foi parte de uma onda regulatória e corporativa coordenada, empurrada por processadores de pagamento (Visa, Mastercard), por lobby evangélico (a Exodus Cry, o NCOSE), por pânico moral sobre tráfico, que, sob a justificativa nobre de combater abuso, retirou plataformas, ferramentas e renda exatamente das comunidades mais vulneráveis ao abuso.
Comunidades LGBTQ+ perderam, talvez, o mais difícil de quantificar: um espaço de formação. Pessoas trans documentando transição perderam meses ou anos de fotos de recuperação cirúrgica, marcadas como “mamilos de aparência feminina” pelo bot, num gesto que era simultaneamente cirúrgico e simbólico de transfobia algorítmica. Educadores sexuais que mantinham blogs para jovens queer perderam recursos cuidadosamente construídos. Comunidades de fanfic queer, historicamente um dos espaços mais importantes de elaboração de desejo e identidade para pessoas que cresciam sem representação, foram atingidas em massa, porque qualquer ilustração sugestiva caía no filtro.
Um usuário chamado Asher (handle @gachabasta), dois anos depois, ainda postaria no Twitter: “Tumblr, depois do seu banimento de ‘conteúdo adulto’, vocês removeram todas as minhas fotos de recuperação de cirurgia de tórax citando que meus mamilos eram ‘de aparência feminina’. Vocês tiraram minhas fotos e ativamente me misgenderaram no processo”. Esta é uma frase que merece ser lida duas vezes. Não é apenas que o algoritmo errou. É que o algoritmo, treinado em uma noção binária do corpo, reproduziu a transfobia que a comunidade do Tumblr havia passado uma década trabalhando contra.
E há a perda que é mais difícil de articular: a perda do espaço como condição de possibilidade. Adolescentes queer de Belo Horizonte, de uma cidade do interior do Mato Grosso, de um subúrbio do Texas ou de um vilarejo nos Bálcãs, pessoas que não tinham livraria queer perto de casa, nem comunidade local, nem família receptiva, nem dinheiro para terapia, tinham, no Tumblr, uma biblioteca afetiva infinita. Não apenas pornografia. Citações, fotos, ensaios, tirinhas, discussões. Gente parecida com elas existindo em público. Isso não foi substituído. Não há substituto. As migrações posteriores, para Twitter, depois Mastodon, depois Bluesky, para Discord, para Pillowfort, fragmentaram o que antes era um espaço comum. Pesquisadores chamam isso de Tumblrpocalypse, ou digital exodus, termos que tentam capturar uma diáspora cujos custos ainda estamos calculando.
A higienização tem um nome
É tentador contar essa história como tragédia de incompetência corporativa: Yahoo bobo compra Tumblr, Verizon mais boba ainda piora, ban mal-feito mata a galinha dos ovos de ouro. Essa versão é parcialmente verdadeira, mas é insuficiente. Porque o que aconteceu com o Tumblr não foi acidente. Foi a expressão local de uma tendência estrutural que vem reformatando a internet inteira nos últimos dez anos.
Matt Mullenweg, atual CEO do Tumblr depois que a Automattic comprou a plataforma em 2019 por menos de 3 milhões de dólares (um milésimo do que o Yahoo havia pago seis anos antes), disse a coisa em voz alta num post de blog: “a era casualmente porn-friendly do início da internet é atualmente impossível”. A palavra-chave aqui é impossível. Não indesejável, não imoral. Impossível. E impossível por razões muito específicas: porque processadores de pagamento (Visa, Mastercard, PayPal, Stripe) e seus reguladores tornaram tecnicamente inviável manter uma plataforma de massa que hospede conteúdo adulto sem perder a capacidade de processar transações financeiras, fechar contratos publicitários ou existir nas App Stores da Apple e do Google.
Isto é fundamental: a higienização das plataformas não é principalmente moral. É financeira. É a transferência da regulação da expressão sexual para o setor privado dos cartões de crédito, que tem incentivos contraditórios (pânico de fraude, lobby religioso, pressão de seguradoras) para empurrar todas as plataformas em direção a uma estética sanitária genérica que se parece, cada vez mais, com a lan house de uma escola pública dos anos 2000.
O resultado é que toda plataforma que cresce o suficiente para ser comercialmente viável é forçada, em algum ponto, a fazer o que o Tumblr fez. O Instagram passou pela mesma curva, mais devagar e com menos drama. O TikTok já nasceu dentro dela. O Twitter resistiu mais, em parte por incompetência gerencial, em parte por idiossincrasia, até ser comprado por alguém com outros problemas. E o que sobra, embaixo, são plataformas menores, mais frágeis, mais difíceis de descobrir, e que oferecem comunidade mais fraca exatamente para quem mais precisava da plataforma grande: jovens queer sem rede local, artistas indie sem agente, trabalhadoras sexuais sem outras opções de renda, pessoas trans em territórios hostis.
A lição que ficou para mim, depois de acompanhar essa história, é que a margem é sempre testada primeiro. O que aconteceu com trabalhadoras sexuais hoje vai acontecer com artistas amanhã. O que aconteceu com pornografia indie em 2018 aconteceu com fotografia de erótica em 2022. O que aconteceu com fotografia de nu artístico em 2022 aconteceu com qualquer corpo não-normativo em 2025. A escalada tem uma direção, e ela não anda para trás sozinha.
O que sobrou
O Tumblr ainda existe, e eu me visito por lá com uma certa frequência, mais para resgatar conteúdos antigos do que para navegar pela plataforma. Mullenweg, em outubro de 2025, durante o WordCamp Canada, chamou a aquisição de “seu maior fracasso”, admitindo que a plataforma continua sangrando dinheiro mesmo ao preço de pechincha de 3 milhões. Houve gestos de reconciliação, um pedido público de desculpas à comunidade LGBTQIA+ pela forma como o banimento de 2018 foi conduzido, promessas vagas de “rever” a política, mas nada que efetivamente reverta o dano. E houve novas controvérsias: em 2024, o próprio Mullenweg se envolveu publicamente na suspensão de uma usuária trans, num episódio tão bizarro que parte da equipe trans do Tumblr publicou uma nota em negrito dizendo que “Matt não fala em nome das pessoas LGBTQ+ que ajudam a administrar o Tumblr ou a Automattic”. A confiança, uma vez quebrada, não se remenda por comunicado.
O que sobrou da plataforma é uma sombra movimentada. A Geração Z hoje compõe cerca de metade dos usuários ativos mensais e algo como 60% dos novos cadastros, o que é interessante: significa que jovens continuam migrando para lá em busca de algo que não encontram no Instagram, no TikTok, no Twitter. Talvez encontrem pedaços. Mas a constelação inteira, a infraestrutura cultural que sustentava aquele ecossistema bagunçado, não voltou. Foi-se com a era em que ela era possível.
Resta, para quem viveu aquilo, a memória de ter conhecido um lugar onde as coisas podiam coexistir sem precisar se vender. Onde uma adolescente lésbica em Salvador podia ler fanfic enquanto uma pornógrafa queer em Berlim postava fotos do próprio corpo, enquanto um ilustrador trans em Tóquio publicava esboços de anatomia, enquanto uma fotógrafa analógica em Belo Horizonte arquivava câmeras pinhole, enquanto um anarcopunk em Buenos Aires distribuía zines sobre libertação animal. Todos no mesmo scroll. Sem hierarquia clara. Sem ser segmentados em “público-alvo”. Apenas existindo, juntos, no último lugar bagunçado da internet.
E, talvez, esta é a única esperança real, a gente acabe buscando um outro lugar bagunçado na internet, menor, mais frágil, descentralizado, federado, financiado de maneira independente, embora, convenhamos, esteja cada vez mais difícil na era das plataformas. Mas o Tumblr foi, durante uma década, a prova de que era possível ter um espaço de massa que não fosse hostil às margens. Que essa prova tenha sido destruída por uma combinação de incompetência corporativa, pânico moral e pressão de processadores de pagamento não significa que ela foi cancelada. Significa, apenas, que sabemos agora o que estamos contra. E quem.
*Esse texto é baseado em meses de reflexões sobre o Tumblr, que foi a plataforma que eu mais usei entre 2012 e 2017. Lá eu tive cerca de 10 microblogs, sendo o Deslocalogique e Carlão126 meus principais. No Tumblr eu pesquisava referências de fotografia, arquitetura e comportamento no mundo underground. Eu reuni todo os rascunhos e pedi a um recurso de IA para me ajudar com a revisão e verificação dos dados citados.
