A mágica das corporações

Os propagandistas, criadores de imagens e ideólogos da cultura tecnológica são seus mágicos, e se eles não reivindicam poderes sobrenaturais, é apenas porque a própria tecnologia se tornou tão poderosa que eles não precisam fazê-lo. E se não reconhecemos mais a magia explicitamente, é porque a tecnologia e a magia, para nós, são a mesma coisa.
Gell A. (1988) Technology and magic. Anthropology Today p. 9.

Passei as últimas horas da manhã preso à leitura do artigo “Conjuring algorithms: Understanding the tech industry as stage magicians”. No texto, os autores Peter Nagy e Gina Neff apresentam o termo “conjuração de algoritmos” para descrever como a indústria de tecnologia usa a linguagem da magia para moldar as percepções públicas sobre algoritmos. Utilizam a imagem do mágico como metáfora para ilustrar como o setor implanta estratégias narrativas para apresentar seus algoritmos. Ao relacionar princípios da magia com a tecnologia, os autores argumentam que a manipulação algorítmica segue uma dinâmica que serve a três propósitos: a ocultação do design tecnológico, a criação de confusão sobre as reais capacidades das ferramentas e a produção de efeitos deslumbrantes que encantam os usuários.

O artigo nos incita a questionar narrativas corporativas sobre tecnologias de IA, que se valem de uma capa simbólica para projetar futuros moldados pela imaginação das empresas ou nos convencer de que o desenvolvimento tecnológico é um processo autônomo e fantástico. Na mesma linha, o termo “algoritmo” é simplificado ao ponto de se tornar um conceito vago, confuso e quase inexplicável.

Ao ler o artigo, passei a refletir sobre como essas narrativas nos impedem de compreender que a inteligência artificial é, nas palavras de Dora Kaufman (episódio 133 do podcast Radio Escafandro), um modelo estatístico de probabilidades que depende da forma como nós, humanos, a desenvolvemos e adotamos.

Vivemos rodeados de discussões sobre como as IAs transformam relações de trabalho, mas deveríamos priorizar debates sobre a falta de transparência na programação desses sistemas e sobre o empobrecimento da nossa capacidade de imaginar os impactos reais dessas tecnologias em nossas vidas.

Segue o link para o artigo: https://lnkd.in/djDbAJsv

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